quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A neotenia (2)

As repercussões da neotenia sobre a condição humana são mais especificadas por Gould e outros autores citados por ele:
"Este retardamento reagiu sinergisticamente com outros marcos da hominização – com a inteligência (através de aumentar o cérebro pelo prolongamento de tendências de crescimento fetais e por prover um período mais longo de aprendizado infantil) e com a socialização (através de cimentar as unidades familiares pelo cuidado parental aumentado da prole de maturação lenta)...O prêmio adaptativo assim colocado no aprendizado (em oposição à resposta inata) é único entre os organismos... O homem é programado para aprender comportamentos, mais do que reagir via um código instintual determinante impresso... A correlação da maturação com a perda de plasticidade (mental tanto quanto física) foi há muito reconhecida... Konrad Lorenz em particular tem repetidamente enfatizado o caráter persistentemente 'juvenil' de nossa flexibilidade comportamental... a 'neotenia comportamental' é apenas uma outra conseqüência do retardamento desenvolvimental que permitiu nossa neotenia morfológica: 'o caráter constitutivo do homem – a manutenção de uma interação ativa, criativa, com o ambiente – é um fenômeno neotênico... ampliado para persistir até a senilidade'".
Ou seja, a prematuridade, este fato básico da natureza humana, não ocorre somente no início da vida como se acreditava quando se pensava que o fator biológico fosse um nascimento precoce fruto da aquisição da bipedestração, mas é persistente por toda a vida do indivíduo até a senilidade. Poderíamos preferir pensar que a percepção do estado de desamparo decorrente da imaturidade pertence somente ao início da vida, mas aí estaríamos em dificuldades para entender a difusão de muitas produções da civilização, especialmente o apelo das teorias místicas, religiões, terapias de vidas passadas por exemplo, que visam a negar a maior impotência de todas que é a que sentimos diante da consciência da morte.
Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul
Maurício Marx e Silva (e outros)

Nenhum comentário:

Postar um comentário